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Micro, pequenas, médias e grandes empresas deixam de usar os chamados softwares proprietários e migram para softwares livres, buscando reduzir custos.
Muitos são os motivos que levam uma empresa de pequeno porte ou mesmo um conglomerado a optar pela mudança do seu sistema operacional e de outros programas proprietários utilizados em seus computadores, para o software livre. Os dois principais são a necessidade de reduzir custos e o menor risco de pirataria.
O software proprietário é aquele programa de computadores que tem seu código fonte fechado, ou seja, suas instruções lógicas não podem ser conhecidas, alteradas ou copiadas.
Elas têm dono. São propriedade intelectual. Para efeito de comparação, poderíamos dizer que é o mesmo que comer um bolo sem saber quais ingredientes o cozinheiro utilizou. O mais famoso "cozinheiro" de software proprietário é a Microsoft. É ela quem cria as novas versões desses programas e estabelece o seu preço.
Já o software livre é aquele que tem seu código fonte aberto, isto é, pode ser alterado e copiado à vontade. Portanto, suas instruções não pertencem a ninguém. É um bolo sem segredos. Nesse caso, são vários os "cozinheiros" ou desenvolvedores de software. Trata-se efetivamente de uma comunidade aberta que conta hoje com 400 mil programadores espalhados pelo mundo todo que utilizam a Internet para se comunicar. Qualquer pessoa física ou jurídica que queira participar é bem-vinda. O software livre mais conhecido é o sistema operacional Linux.
Preços e licenças
Para ser informatizada, qualquer empresa, invariavelmente, terá que instalar em cada um de seus computadores, pelo menos dois tipos de programas (softwares): o sistema operacional e os aplicativos. Tomemos como exemplo os produtos Microsoft. O sistema operacional é o Windows e os aplicativos básicos vêm no pacote Microsoft Office, composto por Word, Excel, PowerPoint e Access. Todos destinados à automação dos serviços de escritório.
Hoje, o custo da última versão do Windows, a XP, pode chegar ao valor de R$ 955,00 que, somado ao preço médio do pacote Office, de R$ 1.809,00, atinge a salgada quantia de R$ 2.764,00. Agora imagine esse montante multiplicado pelo número de máquinas existentes em uma empresa. "É bem verdade que os fabricantes de softwares proprietários tentam amenizar essa situação fazendo promoções. Quanto maior a quantidade adquirida de programas, menor o preço. Mais isso não dá conta do recado", afirma Jesimiel de Oliveira, dono da Seluque Equipamentos Ltda, que migrou para o Linux há cerca de dois anos.
O fato é que o preço dos softwares proprietários é composto basicamente por um valor mínimo, referente ao custo de cópia e distribuição, e um valor bastante alto, referente a uma licença de permissão de uso. É ela que encarece os programas proprietários. Portanto, ao adquirir um software dessa natureza, o usuário não se torna dono da obra, está pagando por uma licença de uso, de forma não exclusiva e não poderá dispor das suas instruções lógicas contidas no código fonte e muito menos copiá-las, mesmo que seja para outro computador de seu uso. Daí deriva o risco de pirataria.
Atualização
Outro problema vivido tanto por empresários, quanto pelos órgãos governamentais em todas as instâncias, é a obrigatória atualização dos aplicativos. Com o tempo, surgem novas versões de programas que, geralmente, não são compatíveis com as anteriores. Se todo o mercado estiver utilizando a versão mais atualizada, os arquivos trabalhados nos computadores de uma empresa ou instituição pública que usa aplicativos mais antigos não poderão ser lidos pelas máquinas de seus clientes, parceiros ou mesmo contribuintes. "Essa foi uma das razões que nos levaram a instalar o software livre nos telecentros construídos na cidade de São Paulo", explica João Cassino, assessor da coordenadoria geral do governo eletrônico da capital paulista.
Os telecentros ou Pontos Eletrônicos de Presença (PEP) são salas com 20 computadores trabalhando com softwares livres e conectados à Internet de alta velocidade, onde qualquer pessoa pode participar de cursos de informática ou navegar pela rede.
Hoje, eles estão instalados em 19 pontos da cidade, a maior parte na periferia e atendem 62 mil pessoas ao dia. A iniciativa foi da Coordenadoria do Governo Eletrônico que desenvolve esse projeto desde o início do ano passado e pretende combater a exclusão digital, possibilitando acesso fácil e gratuito à população de baixa renda. "Deixamos de gastar quase 2,5 milhões de reais em licenças para a Microsoft. Para que vamos mandar esse dinheiro para Seatle (cidade sede da empresa nos Estados Unidos), se temos tantos problemas para resolver aqui", esclarece Cassino.
A razão para citar especificamente a Microsoft é que todos os aplicativos, de uso altamente difundido, são por ela fabricados e monopolizados. E, detalhes, o sistema operacional Windows não aceita softwares livres. Portanto, quem escolhe usar uma plataforma (sistema operacional) proprietário só pode instalar aplicativos da mesma natureza e se precisar de novas versões terá que pagar o preço estabelecido.
Foi por isso que Jesimiel de Oliveira, resolveu migrar para a plataforma Linux e trabalhar com aplicativos livres. "O custo das licenças que precisávamos chegava a quase 20 mil reais, sem contar o que gastaríamos mais tarde para atualizar nossos 10 micros. Para a instalação do Linux, em todas as máquinas, incluindo o programa oficial, a mão-de-obra e os aplicativos, gastamos, na ocasião, R$ 1.500,00."
Pela Internet
Na verdade, todos os softwares possuem licença. No entanto, no caso dos programas livres usa-se a GLP (General Public Geral). Ela estabelece que nenhum usuário pode adicionar ou criar restrições para negar a outras pessoas a liberdade de copiar, adaptar, alterar ou redistribuir o software. No entanto, isso não restringe a comercialização desses programas. Qualquer pessoa ou empresa pode cobrar seu custo de cópia, embalagem ou distribuição. Um valor que normalmente é baixo e só existe se o software for adquirido em lojas ou comprado de algum amigo.
Praticamente, todos os programas livres podem ser encontrados e copiados pela internet. Nesse caso, o próprio usuário faz a instalação ou usa os serviços e suporte técnico de alguma empresa. Aliás, há um sem número de empresas que desenvolvem software livre. Uma delas é a Conectiva. De acordo com o seu diretor de produtos e soluções, Rodrigo Stulzer, as empresas ganham dinheiro prestando suporte técnico, dando cursos de treinamento corporativo para utilização, desses programas, vendendo apostilas e desenvolvendo apostilas e desenvolvendo softwares muitos específicos, personalizados que supram as necessidades de determinada empresa. Nessa última hipótese, só é cobrado o trabalho de criação. "A vantagem dos programas livres é que a pessoa não fica dependendo de um único desenvolvedor", comenta.
De modo geral, todos os aplicativos de funções mais difundidas, como o editor de textos, as planilhas de cálculos, os bancos de dados e outros, possuem versões em software livre. Como o Open Office, que possui funções semelhantes ao Microsoft Office. Além disso, o Linux tem a vantagem de aceitar e converter arquivos que venham de programas proprietários. Stulzer acrescenta que, se o usuário quiser fazer a instalação do Linux, sozinho e tiver dúvidas, pode contar com a ajuda da comunidade.
José Luís Dadário, diretor de projetos especiais de tecnologia da informação da Vésper, que também migrou para os programas livres, ressalta que a "comunidade é muito ativa, tanto para desenvolver novas soluções, quanto para corrigir problemas de programação existentes. Ela é preventiva e o desenvolvimento é colaborativo."
"Cada um faz um pouco", acrescenta, referindo-se à rapidez com que são resolvidos os problemas e à pouca incidência de vírus em ambiente Linux.
Afinal de contas, são 400 mil pessoas trabalhando estimuladas pelo crescimento do número de usuários. Além disso, também é possível fazer um "dual boot", ou seja, ter instalados em uma única máquina o Linux e o Windows.
Atualmente, mais de 20 governos, incluindo os da Alemanha, França e China, estão encorajando o uso do Linux e de outros programas livres. "O monopólio não é bom para ninguém", destaca Stulzer, e conclui: "O software livre veio para ficar."
Serviços:
Apostila de informática livre/Linux: www.telecentros.sp.gov.br
Outros sites:
www.softwarelivre.rs.gov.br
www.cipsga.org.br
www.codigolivre.org.br
www.seluque.com.br
Fonte: REVISTA DE NEGÓCIOS - ANO I - NÚMERO 4 - NOVEMBRO / DEZEMBRO 2002
ESTADO DE SÃO PAULO