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Por que o Linux não emplaca?


Entenda a razão de a maioria das empresas preferirem pagar para usar o Windows, da Microsoft, em vez de adotar o programa que tem o pingüim como símbolo.


linux

É grátis, seguro contra vírus e outras pragas virtuais e, além disso, o seu código pode ser modificado por qualquer usuário. Toda vez que se fala sobre o Linux, o sistema operacional criado há de 15 anos pelo programador finlandês Linus Torvalds, a argumentação é a mesma.

Mas, embora seja apontado como uma boa alternativa a programas pagos, como o Windows, da Microsoft, e o Mac OS, da Apple, o Linux não consegue conquistar o público. Segundo uma pesquisa realizada pelo Yankee Group, especializado em tecnologia, apenas 1% dos computadores do mundo, estimados em 900 milhões, usam o Linux, enquanto 97% estão equipados com o Windows (os 2% restantes usam outros sistemas operacionais). Se considerarmos o uso em servidores, máquinas mais parrudas que centralizam as informações de vários computadores e as disponibilizam em rede, a situação é um pouco melhor. De acordo com o Gartner Dataquest, outra empresa internacional de pesquisa especializada no setor, o Linux é usado em l,4 milhão de servidores em todo o mundo, o equivalente a 16% do total. Mas, mesmo assim, a Microsoft ainda fornece o sistema mais popular e detém uma fatia de 65% deste mercado (o restante, mais uma vez, está em mãos de outros fabricantes).

Por que será que isso acontece? Se o Linux é de graça e tudo isso que se diz por aí, por que não emplaca e joga seus concorrentes na lona?


Custo Total

A resposta exige, primeiro, que se deixe de lado o aspecto ideológico da questão, normalmente presente no discurso usado pêlos Linuxmaníacos, a legião de aficionados pelo programa que se espalha pelo mundo afora e não poupa energia para defendê-lo, nem para exorcizar o fundador da Microsoft, Bill Gates, alvo preferido de seus ataques.

Assim, fica mais fácil entender o que acontece com base no aspecto tecnológico, que é o que interessa, de fato, neste caso. "As pessoas travam uma discussão de negócios como se estivessem discutindo futebol", afirma Sanjeev Aggarwai, analista-sênior do Yankee Group. Dito isso, vamos ao ponto. O Linux, cujo símbolo é um pingüim, não emplaca, de acordo com os especialistas, porque tem uma série de desvantagens. A idéia de que é gratuito é uma ilusão. Os usuários precisam investir pesado em adaptações do sistema, para moldá-lo às suas necessidades. Isso exige suporte técnico, que não é barato, para instalação e desenvolvimento. Como não há muitos profissionais especializados em Linux, o preço do serviço, pela lei da oferta e da procura, é maior. Além disso, como o sistema não é bem conhecido e é pouco amigável, os usuários precisam receber um treinamento intensivo, que aumenta ainda mais os custos de implantação. "Embora seja gratuito, o Linux é um sistema complexo, que exige alto grau de personalização", afirma Aggarwai. "Por isso, muitas vezes, o barato pode sair caro."


O analista diz que é importante calcular o custo total de propriedade do sistema, chamado em informatiquês de TCO (do inglês total cost of ownership).
Ele inclui na conta não só o valor inicial de aquisição de um software ou de um equipamento, mas todos os custos que influenciam o seu ciclo de vida ao longo do tempo, como valores relacionados à instalação, à atualização, à manutenção e ao treinamento. E, na hora de fazer a conta na ponta do lápis, o Windows, da Microsoft, leva uma vantagem. Uma pesquisa realizada pela International Data Corporation, empresa de consultoria americana, mostra que um servidor de rede instalado com a plataforma criada pela Microsoft pode gastar até 22.000 reais em cinco anos e, com o Linux, pode chegar a 30.000 reais no mesmo período. Deste total, de acordo com o levantamento, 82,2% se referem ao gasto com mão-de-obra. Está certo que a pesquisa foi encomendada pela Microsoft e deve ser vista com cautela. Mas deve-se considerar, a favor da empresa de Bill Gates, que os Linuxmaníacos nunca colocam esses custos na balança quando defendem o uso do sistema e não é por acaso.
Segundo o professor Fernando de Souza Meirelles, titular do de SATÃ - No Brasil, um exemplo recente mostra bem do que estamos falando. No começo do atual governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, numa tentativa de agradar aos políticos da esquerda, que praticam um discurso anti-Bill Gates, considerado o "satã" do capitalismo ianque, levantou a bandeira do Linux. Para alavancar o uso do software livre no país, Lula estimulou a instalação do sistema em várias áreas da administração federal, em substituição ao Windows, que era usado até então. Mas a migração para o Linux, além de contraproducente, custou caro aos cofres públicos. De acordo com informações de executivos do setor, o governo contratou cerca de 2.000 programadores em tempo integral, para realizar a mudança. Só em salários e encargos trabalhistas do pessoal são consumidos 56 milhões de reais por ano - o dobro do que o Instituto Nacional de Tecnologia de Informação vinculado à Casa Civil, estima o governo federal conseguiu economizar com os programas que deixou de comprar em 2004. "Eles esbarram em dificuldades porque mudaram de uma tecnologia para a outra, sem testar e adaptar", afirma Haroldo Hoffmann, diretor de iniciativas e estratégias da IBM Brasil, fabricante de equipamentos de informática


Agilidade

Com as empresas não é diferente. A Açotubo, por exemplo, que atua na área de construção civil, naval e mecânica, utilizava, em suas 220 máquinas, o aplicativo OpenOffice, uma espécie de Office que roda no Linux, com aplicativos de texto, cálculo e apresentações de trabalhos. Segundo o gerente de tecnologia da Açotubo, Hothenys Nascimento, o programa começou a dar problema seis meses depois da implantação. Ele conta que seus clientes não conseguiam abrir os documentos enviados por e-mail pelos funcionários. Mesmo entre o pessoal da própria empresa havia dificuldades para acessar documentos internos.

Nascimento afirma também que o programa era bem menos amigável do que o Office, da Microsoft, e o Mac OS X, da Apple. Como o OpenOffice precisa de adaptações, os programadores, muitas vezes, se esquecem dos usuários leigos e usam comandos e aplicações mais complicados. "Chegamos a ter erros graves em planilhas, porque os funcionários tinham dificuldade de fazer suas tarefas", diz.

Por tudo isso, a empresa decidiu migrar do Linux para o Windows, mesmo sabendo que teria um custo alto para fazer a mudança. Investiu 40.000 reais para dar início ao processo. Hoje, cerca de 70% das maquinas já têm o Windows XP, da Microsoft, a versão mais recente do sistema. A migração deve terminar apenas em 2007. Mas, segundo Nascimento, já é possível ver alguns avanços na gestão das informações. Os documentos, disponíveis em Word ou em planilhas Excel, com preços e cotações para os clientes, podem agora ser acessados e lidos facilmente. "Já conseguimos dar maior agilidade no atendimento aos clientes", diz.

No caso da Ativo.com, empresa que faz inscrições on-line para eventos esportivos e usava o Linux em seu servidor, o sistema tornou a atualização do seu site um drama. De acordo com Christian Kittler, diretor-executivo da empresa, a cada alteração no site, toda a estrutura precisa ser modificada, demandando várias horas de desenvolvimento e dificultando o cumprimento de prazos com a clientela. Sem falar nas despesas extras que isso exigia. "Chegamos a gastar cerca de 120.000 reais em desenvolvimento e não conseguíamos realizar novos projetos", diz Kittler. "Por causa da questão tecnológica, chegamos a perder clientes." Ele conta que a empresa não podia desembolsar mais dinheiro a cada novo projeto. E decidiu, então, fazer um último desembolso imprevisto. Só que, desta vez, o dinheiro - cerca de 30.000 reais - foi aplicado para custear a migração do site para o Microsoft Windows 2003 Server e o banco de dados Microsoft SQL Server 2000. Com a nova tecnologia, segundo Kittler, ficou mais fácil implementar novos serviços e customizar ofertas para a clientela.

Já o empresário Rogério Souza, sócio da Usinanimada, estúdio de produção de animações, vídeos, ilustrações e design localizado em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, preferiu pagar para usar o sistema Mac OS, da Apple, em vez de aderir ao Linux. Segundo Souza, a empresa pesquisou outros sistemas operacionais, mas concluiu que, em seu ramo de atividade, que exige uma interface gráfica com mais recursos e grande capacidade de processamento, o Mac OS seria o ideal. "Estou muito feliz, não troco o Mac por nada", afirma.

Os especialistas independentes dizem que o Linux não é para todo mundo. Apesar da evolução do sistema, ainda há poucos aplicativos para as empresas usarem em seus micros. Mas é claro que há as que adotam o sistema e estão satisfeitas com ele, principalmente quando é usado no servidor. E, no caso de grandes empresas, que precisam de milhares de licenças, os custos de adaptação do sistema podem se diluir e tornar o uso do Linux mais vantajoso. A utilização do software livre pelas grandes empresas representa, acima de tudo, uma vitória para os seus defensores. No Brasil, a Casas Bahia, a Lojas Renner e a Telemar, por exemplo, usam o sistema e, além da economia que fizeram, garantem que ganharam produtividade. A lista é longa e ainda inclui, surpreendentemente, empresas como Carrefour, Pão de Açúcar e Petróleo Ipiranga. A Casas Bahia informa que teve uma economia com o pagamento de licenças de seis milhões de dólares. A Telemar, uma das maiores operadoras de telecomunicações do país, por sua vez, usa o Linux em suas cobranças e diz que consegue poupar 27 nos gastos com manutenção.


economia

Piratas

Até algumas pequenas e médias empresas decidiram seguir o mesmo caminho. Foi o que fez o empresário Jesemiel de Oliveira Seluque, dono da Seluque Equipamentos, empresa de Elias Fausto, no interior de São Paulo, que atua na área de automação industrial. Os dez computadores da empresa e o seu servidor usavam os programas originais da Microsoft, mas inexplicavelmente travavam com freqüência. Até que Seluque descobriu a razão do problema. Os programas originais tinham sido trocados por piratas pela turma terceirizada que dava suporte técnico à empresa. "Era um problema atrás do outro", afirma ele. "Não conseguíamos emitir uma nota fiscal."

Se quisesse recomprar as licenças para reinstalar os programas da Microsoft, que custaram 17.500 reais em 2001, Seluque teria que investir mais 15.000 reais. O que, segundo ele, seria inviável no momento. E também, sem querer conviver com os antigos fantasmas, optou pela migração para o Linux. O empresário diz que gastou apenas 1.500 reais na instalação e até agora não teve surpresas desagradáveis. "Não tenho do que reclamar", afirma ele.

Entre as pequenas e médias empresas, porém, a Seluque é a exceção que confirma a regra. Mas, mesmo assim, os grandes produtores de softwares mundiais, como a Microsoft e a Apple, não podem ignorar que o Linux tem o seu mercado, principalmente quando se fala em servidores. Não por acaso, Bill Gates criou uma área específica para acompanhá-lo de perto. Coube ao executivo Bill Hilf, gerente-geral de estratégia de mercado da Microsoft, desenvolver, junto com sua equipe de programadores, produtos com a tecnologia Microsoft para atuar em ambientes de Linux. "A coexistência dos dois sistemas é uma tendência", diz ele. Até o programador John Maddog Hall, presidente da Linux International, entidade sem fins lucrativos dedicada ao software livre, é um adepto da coexistência pacífica dos principais sistemas operacionais existentes no mercado. "Se você tem um sistema trabalhando bem, não vale a pena convertê-lo", afirma. "É preciso ver o que faz mais sentido para cada empresa."

É bom que se saiba, de qualquer forma, que a predominância dos sistemas pagos não é resultado do poder econômico dos fabricantes, como muitos defensores do Linux parecem acreditar. Também não é fruto de uma publicidade bilionária, porque não há anúncio que ajude a vender produtos ruins. Se a maioria opta por pagar por algo que poderia ser obtido de graça no mercado, é porque lhe parece que a relação custo-benefício dos programas pagos é maior do que a do software livre. Afinal, o mercado não pode ser tão imperfeito a ponto de as empresas mexerem no caixa sem ter uma boa razão para isso.

Fonte: PEGN - PEQUENAS EMPRESAS GRANDES NEGÓCIOS - JULHO 2006
www.globo.com/pegn


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